segunda-feira, 15 de agosto de 2011

“Hão de vibrar os nossos corações…”

Não é fácil escrever sobre aquela que amamos. Não é tão simples colocar no papel aquilo que sentimos. Não se pode esperar das palavras o poder de traduzir sentimentos. Palavras mudam o curso da história, palavras selam destinos, palavras unem e separam, palavras têm mais força do que muitos de nós podemos imaginar. No entanto, como quase tudo neste mundo, palavras possuem limitações. Palavras são limitadas frente a tudo aquilo que é ilimitado. E o que de bom neste mundo pode ser tão ilimitado e inesgotável? Simples, o sentimento que também é capaz de mudar o curso da história, que também sela destinos, mas que não separa, apenas une ainda mais e que possui uma força inexplicável e intraduzível: o amor.

É covardia traduzir em palavras um sentimento tão nobre e poderoso, um sentimento que sequer conseguimos explicar. Porém, sempre há aquele que tenta, muitas vezes em vão, descrever o mais nobre dos sentimentos. Não sou diferente, também tento, mesmo que não consiga. Para o amor não existem barreiras, obstáculos são ignorados. O ser humano possui a capacidade de amar tudo aquilo que lhe aprouver. Pode-se amar um familiar, um amigo, uma pessoa que entra em sua vida, um país, uma banda, uma música, um livro, um esporte, um clube de futebol… Espera lá! Um clube de futebol? Sim, um clube de futebol.


Ao olhar para o calendário e perceber que hoje é dia 14 de agosto, muitos corações em todo Brasil e além-mar batem mais forte por causa da bola. Corações que a partir do amor fazem pulsar um sangue verde-encarnado nas veias. Corações calejados e fortes como poucos. Corações que aprenderam na dor a dar valor às conquistas de cada vitória. Corações desbravadores, corajosos e seletos. Corações abençoados, que pulsam no compasso de um Fado ou de um Vira, sem importar o ritmo, em prol de apenas um amor. Um amor que tem nome e sobrenome, talvez o primeiro amor do coração de muitos, um amor que muitas vezes não é recíproco, ou seja, a síntese do que é amar: dar sem esperar nada em troca, amar simplesmente por amar.

A Associação Portuguesa de Desportos completa, neste dia 14 de agosto, gloriosos 91 anos de história. Só aquele que teve seu coração laçado pela ‘Rubro-Verde Espetacular’ sabe o que é amar um clube incondicionalmente. Poucos são os que possuem esse privilégio, afinal, massas são cegas e unanimidades são burras. Nós remamos contra a maré, nós somos Lusa, somos poucos, mas somos verdadeiros, somos guerreiros, somos teimosos e sabemos como ninguém o que é o amor verdadeiro por um clube. Sabemos o que é ser minoria, sabemos o que é crescer do nada, sabemos o quão difícil é fazer sucesso em terra alheia, mas também o quão gratificante é ver as cores que remetem a nossas origens sendo honradas.

Na maioria das vezes, um torcedor escolhe um clube para torcer baseado em títulos, em tamanho de torcida, em visibilidade na mídia, na moda do momento. Na Portuguesa não é assim, são exceções. Há aqueles torcedores que intitulam seus clubes como gigantes e que dizem não viver de títulos, são fiéis na alegria e na tristeza. Se fossem ao Canindé, veriam de fato quem é que não vive de títulos, teriam vergonha de dizer isso. Já são 38 anos sem soltar um verdadeiro grito de campeão, mas sem perder a grandeza conquistada e vidas inteiras de amor incondicional a esse clube. Em meio a uma cidade onde o chamado futebol moderno reina absoluto, é ali no Canindé que resiste bravamente o futebol romântico.





 



No Canindé, o romantismo do futebol sobrevive. Ali o torcedor dá valor aos mais simples detalhes que enobrecem uma partida de futebol. O amor por um clube não pode ser frio. Ao entrar no Canindé logo se sente a diferença. Ali, o simples cheiro de caldo-verde é valorizado. O mais simples aroma de bolinho de bacalhau frito na hora tem seu valor, vai muito além de um simples bolinho de bacalhau. Ali, senta-se no concreto debaixo de chuva ou sol, em um domingo, uma quarta, uma terça ou uma sexta. Ali, há quem infalivelmente reze na gruta de Nossa Senhora de Fátima, padroeira de Portugal, antes dos jogos. Ali se vende tremoço pelas arquibancadas. Onde mais há isso? Ali a mistura dos ruídos dos radinhos a pilha ainda tem lugar cativo em parte do estádio. Ali se acompanha a Lusa para o lado onde ela joga. Ali se ouve Roberto Leal no intervalo, recebe convite para ver o Grupo Folclórico do clube, o torcedor é tratado de forma intimista, faz parte de uma grande família.

Ali se ouve gritos a ‘Manoéis’ e ‘Joaquins’ a todos os lados, vários olham procurando. Ali muitos se tratam por ‘patrícios’. Ali se ouve histórias das antigas, dos tempos onde o futebol era apenas a diversão do povo, não passava disso. Ali se escuta fatos de muito tempo atrás, de quando muitos ainda viviam em Portugal. Ali a torcida joga junto com o clube, uma linha tênue separa o alambrado das arquibancadas. Ali os jogadores ouvem os protestos, os bandeirinhas se enervam pois escutam a cada xingamento. Ali se comemora cada vitória como se fosse um título, cada gol como se fosse o mais belo de todos, cada apito final como o maior dos alívios dessa vida. Ali o futebol de verdade vive, ali o romantismo prevalece, ali o amor por um clube se faz presente.

Sim, ali. Ali no Pari. Ali onde já houve a famosa Ilha da Madeira, onde cada gota de suor de bravos imigrantes portugueses construiu o Canindé. Ali onde o estádio leva o nome de um dos mais lendários presidentes de clube da capital bandeirante. Ali o amor por um clube reina sem qualquer medo ou vergonha. Ali se unem corações que sabem que em campo, a Portuguesa é sempre um time campeão. Ali as coisas mais simples são valorizadas. Ali ainda sobrevive uma relação entre torcedor e clube que vem se extinguindo nos últimos anos. Ali o futebol possui um romantismo que muitos jovens não mais verão em suas vidas. Ali a beleza se faz na simplicidade.


Muitos podem achar que tudo isso são meros detalhes, meras características de um clube. Para muitos isso tudo pode não querer dizer nada. Tristes daqueles que pensam assim, tristes porque não sabem o real valor do futebol. São tristes porque não fazem parte dessa grande família. Podem não perceber, mas são. Não somos muitos, somos apenas o suficiente para fazer da Portuguesa o clube grande que ela sempre foi. Por mais que a mídia ignore, por mais que as federações conspirem, por mais que tenhamos que lutar contra tudo e contra todos, nossa história já está escrita em páginas douradas do livro sagrado do futebol brasileiro. Ninguém apaga nossa história e ninguém nos impede de continuar fazendo da Portuguesa um gigante. Ninguém pode tirar de nós esse futebol romântico, esse valor aos mais simples detalhes. Podem roubar tudo, menos o amor que sentimos por esse clube.

Afinal, onde está a beleza senão na simplicidade das coisas? Onde está o amor senão na valorização das coisas mais simples? Amar é sentir-se parte de uma história. Amar é identificar-se. Só percebemos que amamos um clube verdadeiramente quando, na arquibancada, nos identificamos com aqueles que estão ao nosso lado. Quando nossos olhos brilham ao ver uma única camisa rubro-verde em meio a multidão. Quando percebemos que fazemos parte de uma grande família e que muito temos que nos orgulhar. Quando olhamos para trás e vemos que tudo que passamos valeu a pena, as alegrias e as tristezas. Quando percebemos que a Lusa é nosso destino, ser lusitano é uma dádiva e que somos os poucos moicanos preparados para ter um coração rubro-verde.

Orgulho de ser diferente. Orgulho de ser de verdade. Orgulho de ser Lusa. Mais do que parabenizar, agradeço. Obrigado, Portuguesa.

Por Luiz Nascimento
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